terça-feira, 3 de junho de 2008

Ao tempo

Frio e chuva são inimigos nº1 dos fins de semana carioca. No Rio de Janeiro, abrir mão de qualquer programa porque as ruas estão molhadas e frias é cultural e os dias de inverno típico ditam o maior point da estação: a própria casa. Com temperaturas mais amenas, os únicos lugares que, de fato, ficam cheios são as videolocadoras. DVD´s e algumas fitas – ente sobreviventes e clássicos que ainda não estão disponíveis na mídia mais moderna – fazem a alegria do carioca acuado pelo frio e pela insegurança que assola a cidade. Assim, os últimos dias foram um festival de filmes, no aconchego do lar.
Muito Almodóvar e seus dramas, muitas mulheres, suas histórias e carrascos, pedófilos e tantos outros personagens habitaram minha casa, o destaque, no entanto, passou longe do brilhante espanhol. Meu oscar foi para o nada inédito mas, tocante e surpreendente “Adorável Julia”, de István Szabó. Aparentemente despretenciosa, a história é uma celebração da maturidade feminina. O exemplo de uma mulher que se refaz, mesmo quando o tempo mostra que o ser é perecível. Por isso, é comovente perceber o quanto a protagonista Annette Bening, que interpreta a atriz Julia Lambert, se entrega às angústias de ter vida pública, sente o peso de “representar” em tempo integral, enxerga em pouquíssimos a possibilidade de trocas mais sinceras e livres de interesses, se ressente do casamento que sustenta e encara – sem medo e sem amor – a aventura e a leveza da relação extra - conjugal. E, melhor ainda é ver o triunfo dessa mesma mulher, quando sublinha o valor sentimental e mais denso das relações que construiu ao longo da vida e enxerga o legado positivo do tempo (!). Se vê sábia, segura e talentosa e reconhece o poder dos elos indissolúveis de densidade e amor, que permeiam as relações afeto, amizade, matrimônio e tantas outras que costurou por toda a vida. Mas, acima de tudo, vê que a plenitude da felicidade depende, exclusivamente, do quanto conseguimos ousar para conquistá-la. Julia abandona a condição passiva – “sou o que o mundo fez de mim” e assume a responsabilidade pelo que é. Consciente do próprio poder e força entende, por fim, que pode se bastar, ser auto-suficiente, completa em sua solidão e feliz.

Um comentário:

Rodrigo disse...

Oi Raquel, finalmente fiz uma visita ao seu blog. Na verdade ja havia feito, mas nao tive tempo de ler, hoje sim. Muito bem escrito, meus parabens! Engracado que entro hj e o seu ultimo post eh sobre o filme Being Julia, do famoso diretor hungaro. Engracado soh pela coincidencia de eu estar aqui, mas na verdade nem tanta porque István Szabó eh um diretor reconhecido mundialmente e nesse sentido ja deixou de ser hungaro. Continue escrevendo e eu continuarei vindo conforme o tempo for deixando. Grande beijo, R.